PF desvenda esquema criminoso que usava chips implantados no corpo, bonecos e gabaritos vazados para vender aprovações em concursos como CNU, BB e Caixa.
Uma denúncia anônima. Um ex-policial militar expulso da corporação. Uma sobrinha cobrando o gabarito pelo celular horas antes da prova. Foi assim que a Polícia Federal começou a desmontar um dos esquemas de fraude em concursos públicos mais sofisticados já registrados no Brasil.
O resultado? Prisões em três estados, um delegado-geral na mira da PF e a confirmação de algo que muitos concurseiros desconfiavam: existe uma indústria bilionária por trás das aprovações fraudulentas.
Como o esquema funcionava
Não era amadorismo. Era uma organização criminosa estruturada, com hierarquia, divisão de tarefas e ramificações em vários estados. Os serviços oferecidos iam desde o mais simples ao mais absurdo:
O preço variava conforme o cargo. Para vagas simples, alguns milhares de reais. Para Auditor Fiscal da Receita Federal, o valor chegava a R$ 500 mil por aprovação. Quem não tinha dinheiro parcelava. Ou pagava com carro. Ou com viagem. Ou com procedimentos odontológicos.
O homem no centro de tudo
Wanderlan Limeira de Sousa, ex-policial militar expulso em 2021, era o principal articulador. Negociava com candidatos, coordenava a logística, distribuía gabaritos. A investigação indica que o esquema funcionava há mais de uma década.
Os concursos atingidos leem como uma lista de desejos de qualquer concurseiro: Polícia Federal, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Polícia Civil, Polícia Militar, UFPB e o Concurso Nacional Unificado (CNU).
Wanderlan morreu em dezembro, após complicações de saúde. Mas o esquema não morreu com ele.
"O lacre é fácil demais"
Dentro do grupo, havia um nome conhecido das bancas: Waldir Luiz de Araújo Gomes, o "Mister M". Ex-funcionário da Cesgranrio, organizadora do CNU, ele sabia exatamente como violar os envelopes de prova sem deixar vestígios.
Em um áudio vazado capturado pela PF, ele é direto: "O lacre é fácil demais, tanto romper e botar de novo."
A sobrinha que cobrou o gabarito pelo celular
O esquema veio à tona por um detalhe quase banal. No celular de Larissa Neves, sobrinha de Wanderlan, a PF encontrou mensagens enviadas ao pai horas antes da prova para Auditor Fiscal. Ela cobrava as respostas. E as recebeu. Antes mesmo de o exame começar, já tinha o tema da redação e o gabarito completo.
Larissa, Wanderlan e um irmão haviam sido aprovados no CNU 2024 para o cargo de Auditor Fiscal do Trabalho, com salário superior a R$ 22 mil mensais.
O que acontece com quem foi pego
As consequências são graves e não se limitam à reprovação:
O que muda no próximo CNU
A Polícia Federal, em parceria com o Ministério da Gestão, anunciou medidas reforçadas para a próxima edição do CNU:
Segundo especialistas, as bancas evoluíram. Mas as quadrilhas também. Elas mudam de alvo, adotam novas tecnologias e se adaptam a cada nova barreira.
A guerra contra a fraude em concursos públicos está longe do fim. E quem estuda de verdade precisa saber disso.




